Cristiano Ronaldo visto por Joaquim Rita PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Quarta, 29 Outubro 2008 15:18
Ronaldo e as exigências

cr_siralex_200.pngSem espanto, Cristiano Ronaldo foi eleito «Melhor Jogador 2007/08» pela FIFPro, num universo de 57.500 votantes, todos profissionais de futebol. Poucas vezes uma eleição terá sido tão previsível ou, se preferirmos, tão proporcional à exuberância da diferença de produção expressa pelos (potenciais) candidatos.

A natureza dos votantes confere ao prémio um peso substantivo porque foram os «seus» que escolheram Ronaldo, não se tratando de uma qualquer patética votação tipo cor de rosa, que pode ser influenciada pela apreciação da beleza física do jogador, pela cor dos seus olhos, pela ausência de borbulhas no rosto ou pela cobiça que desperte em corações femininos mais palpitantes, ansiosos e disponíveis...

Quando se encontra na pole position para discutir a «Bola de Ouro» do prestigiado «France Football» e o «FIFA World Player», ter suscitado dos seus iguais a distinção de «Melhor Jogador» é bem demonstrativo de duas realidades:

- o que de fantástico produziu ao longo da época, deixando a concorrência a milhas de distância;

- a valoração atribuída ao seu desempenho por aqueles que, como ele, suam, sofrem, vibram e desesperam nos relvados de futebol.

Não deixa de ser curioso que Ronaldo não é um jogador consensual em Portugal. Em diversas ocasiões tem sido vergastado, não faltando mesmo quem sustente que está longe de ser o jogador que a Comunicação Social pinta, talvez porque, na selecção, sobretudo no último «Euro 2008», Ronaldo não foi capaz de nos arrastar até ao triunfo - como se essa fosse a nossa obrigação ou o nosso lugar. Talvez esses críticos mais impiedosos se deixem enredar por duas circunstâncias:

- o desconhecimento das penosas condições físicas em que o jogador actuou no «Euro» e que o obrigaria a uma cirurgia - só os grandes campeões aceitam a dimensão de certo sofrimento;

- a irreprimível tendência para desvalorizarmos o que nos pertence, porventura como fizémos com Saramago quando recebeu o «Nobel da Literatura», como subvalorizamos a pintura de Paulo Rego, a eloquência pianista de Maria João Pires ou os atributos vocais de Mariza.

Não sei se esta maneira tão «à portuguesa» de (não) apreciarmos o que é nosso tem a ver com inveja, mesquinhez, pobreza de espírito ou pretensa isenção. Como o povo costuma dizer, «está-nos na massa do sangue». Esta é, também, a razão pela qual, muito mais facilmente nos deixamos seduzir pelos malabarismos de jogadores estrangeiros, acentuando a exigência de qualidade quando esses números são assinados por portugueses.

Mesmo sendo quem é, por mais qualidade que tenha o seu futebol, Ronaldo está condenado a que, em Portugal, alguns o vejam como um jogador banal, apesar do vício que revela em ganhar títulos, colectivos e individuais e do reconhecimento que fazem das suas qualidades no estrangeiro. Em Portugal será sempre... português.

Autor: Joaquim Rita - in RTP/Desporto (A Jogada - Opinião)

 

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